contos

A batina suja

do padre

O padre põe a cada dia uma batina diferente. Ele se confessa no movimento de colocá-la e tirá-la. Ele não sabe dar devidos conselhos quando alguém o procura, mas ele sabe que tem os dizeres mais indevidos em si — se dizendo mais do que ele mesmo o faz. Frustrado por não ser o padre mais exemplar, se aconselha dizendo para si que, ao comer sozinho, sabe que não está sozinho — mesmo assim, ele parece deter o movimento que pode enlouquecê-lo, tirar a toalha da mesa por baixo dos pratos, despindo-o sua casa e suas vergonhas — sabe que sempre há o que quebrar, o que despir — em seu tempo e em seu corpo há ainda mais camadas de batinas para tirar — por mais que ele não possa vê-las.

Se engana quem acha que sua batina é uma roupa sagrada — sagrado é o momento de tirá-la — nessa hora, sem que tantas pessoas lhe peçam ajuda e se frustram quando não ouvem o que querem, ele se lembra que é uma pessoa ainda sem luz — e por isso precisa da batina para poder tirá-la e colocá-la para lavar — e pagar para uma lavadeira lavar sua escuridão — ele mesmo não é capaz de se lavar.

Ele foi colecionando batinas de várias cores, gostava muito do gradiente de cores que elas tinham — as mais comuns são as pretas mas há muitas outras além dessa. A cada semana ele ia a uma lavanderia diferente para então conhecer balconistas diferentes, sejam homens ou mulheres, felizes ou infelizes, melhores ou piores pessoas, não importa, o padre precisava cada vez ver de perto quem iria lavar sua escuridão. Em seu quarto há pilhas de batinas sujas, ele nunca leva todas de uma vez, precisa levar sempre uma só de cada vez, assim tem mais controle de quantas lavadeiras conheceu, na maioria das vezes ele não busca de volta suas batinas, na verdade ele é bem desapegado delas, mesmo que não pareça. Ele percebeu que as balconistas não eram as mesmas pessoas que lavavam as roupas, então um dia ele foi à periferia, pois queria conhecer de perto lavadeiras, e ainda, lavadeiras domésticas, lavadeiras que não tinham máquinas de lavar — por lá ficou, num quartinho, ele viajava cada vez para mais longe e ficava feliz a cada mancha que atingia sua batina. O padre enlouquece cada vez mais no interior do país, no interior de sua paixão, o espírito o levou para longe da igreja, para a procura eterna do rosto da lavadeira que seria a expressão mais fiel do grito que ele guardara por tanto tempo. Era esse fiel que o padre procurava agora, já não se lembrava mais dos seus fiéis seguidores, esses agora o acham estranho, começam a surgir rumores, acham que o padre se desviou de seu caminho, enquanto ele se sente cada vez mais feliz ao mesmo tempo que mais importunado quando se depara com a cena de uma lavadeira da cor da terra debruçada sobre um rio esfregando panos — a linha de suas costas arqueadas lhe pronuncia um novo horizonte — agora ele não quer mais batizar alguém — mas quer ser batizado neste rio onde se ajoelha a lavadeira de avental puído com buracos de bituca de cigarro — ele se aproxima — debaixo do sol que queima, ela está tão concentrada em seu afazer que não o vê — silencioso ele entra no rio — fecha os olhos e mergulha — ali ele enfim diz todas as orações que nunca conseguiu dizer em toda sua vida de padre — embaixo d’água sua respiração se aprofunda, seu pulmão se dilata — encharcado e inchado, o padre nunca esteve tão solenemente imerso — no escuro do rio ele vê a luz vindo das mãos da lavadeira enroscando em sua batina suja — ele nunca se sentiu tão elevado — tão tocado por Deus quanto agora — ela o puxa para fora do rio — eles finalmente se olham — ele então a puxa para dentro do rio — ela não se assusta mas suspira como se encontrasse seu alento — como se soubesse que sua casa não era acima do rio, mas embaixo dele — mesmo que não soubesse nadar seu corpo ofegante porém tranquilo aceita sem hesitar adentrar o vasto rio com um teto baixo porém cristalino — eles nunca mais foram vistos depois desse dia.

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O quarto furtivo

Homenagem a Mallarmé

 

Conto vencedor do 2º prêmio Novos Talentos da FURB (Universidade de Blumenau) em 2019

 

Pendente em sonhos como num dorso de tigre, vejo sair pela fresta de seus dentes uma mosca que se equilibra em seu minúsculo centro voador e leva consigo todo ar voante a trepidar sob seu corpo pululante. O que é uma palavra? É a figuração da vibração de suas asas dentro do meu pulmão. Sendo assim, como posso dizer a palavra voar sem que isso seja, para mim, apenas uma estimulação subjetiva, dado que eu não conheço inteiramente a sensação de voar? Meu não conhecimento sobre ela, porém, faz exatamente com que ela voe dentro de mim e, através da subjetividade dela, eu possa então, na magnitude da minha ignorância de voar, que agora me favorece, enfim dizê-la. Ou seja, não é o conhecimento ou desconhecimento de uma palavra que me permite usá-la — mas a permissão de que suas asas voadoras batam sobre meus estímulos nervosos, entrelaçando o que eu sei com o que não sei, fazendo com que a trajetória de seu voo seja o de uma montanha russa dentro do quarto vazio que sou quando tudo finalmente se cala e deixa que ela se diga. Para ela, não importa se ela não se olhar no espelho antes de sair de seu casulo — importa que talvez existam muitos casulos para ela sair e entrar em outros, seja numa paz de rinoceronte seja numa pressa de menina nua que procura suas roupas jogadas no chão quando é pega no flagra pelo frio que entra pela janela esquecida aberta.

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Um batalhão de moscas que se esqueceu de onde veio entrou no quarto vazio das palavras, que acabaram de sair de seu quarto coberto por cortinas que forravam não só as janelas mas também o chão. O batalhão veio com um propósito: o de mentir em rebanho, pois sozinhas elas não conseguem formar mentiras sólidas o suficiente. Quando uma quer dizer que ama a outra, vem uma terceira e a puxa pela mão advertindo que, para dizer aquilo, ela deve dizer com todo o esquecimento que ela pode atingir para que o grau de mentira e de verdade esteja completamente descolorido e liquefeito; ela esquece então de dizer o que ia dizer até que é engolida pela palavra que tinha acabado de sair de seu quarto e que consegue ser mais esvoaçante do que um batalhão de moscas pretende ser.

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No quarto, não há nada debaixo das cortinas que cobrem o chão, o que faria com que qualquer pessoa que entrasse lá afundaria, pois se enganaria pela imagem marítima que se espalha por cima do nada horizontal. É um quarto onde leis, subordinações ou quaisquer tipo de rubricação não podem ser edificadas. Pela atmosfera do quarto, é bafejada sempre a frieza das janelas octogonais para sempre esquecidas abertas, cujo vento trás resíduos que se afundam sobre o nada engolidor; seu peso faz com que as cortinas aprofundem e lesionem fatalmente um pouco mais a alma — o chão inexistente — do quarto vernacular.

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Orifício

I

Ao chegar em casa, notei que ele havia saído de férias sem mim, enquanto eu continuara na minha rotina de trabalhador, tão inconsciente de meus infortúnios que minhas reclamações não passavam de dispensáveis tentativas de preencher o tempo que, inclusive, eu não possuía. Ele não deu sinal sobre sua ida mas a atmosfera delicadamente perturbada do quarto ao fim do dia denunciava sua súbita saída — xícara suja com sachê de chá pendurado, chinelos no lugar dos sapatos, cama mal feita — ele deve ter saído com pressa — talvez não saíra com o planejamento de sair. A angústia causada por este abandono repentino me questionava sobre o grau de publicidade que daria a ela — ela é espaçosa e gostaria de tomar conta do lugar da sua ausência — na verdade, de qualquer lugar — e acredito que o melhor a fazer seria dar a ela algum lugar, mesmo que aparente, de destaque — para que ela não se amoite no rastro do ser que saiu da minha casa e tente me impor uma falsa máscara de discrição.

II

 

Todos os dias, preparava-me para seu retorno, que eu não sabia quando se daria. Se ele saiu tão rápido, presumo que voltaria rápido. Assim que elaboro esta observação vejo que ela não conserva nenhum sentido; prendo-me a ela para não me confessar inteiramente perdido. De qualquer modo, arrumo a casa em intervalos cada vez menores e anseio por sua chegada ao olhar inúmeras vezes pela janela.

Num desses momentos de suspensão em que ficava na janela, perguntei-me, após ter sido tomado por um vento indigno de prazer, se esses vestígios eram indício da saída dele ou da minha própria, naquela manhã. Ao ser atingido por esta pergunta, comecei a andar sem destino e atingi, no corredor, um estado em que meus pensamentos se escorregaram de mim após se depararem com um choque de diferentes temperaturas de ventos vindouros de opostas direções a se cruzarem em minha janela — que não se afastou de mim, ao passo que me afastei dela –; do lado esquerdo quente e do lado direito, gelado. Estando ao pé do fogo, não podia me congelar; esta estranha e súbita neutralidade — ou absoluta e neutra estranheza — fez com que eu não cedesse às vazias e cômodas curiosidades por diferentes estados. Percebi também que não obteria respostas a perguntas que se recusavam a atravessar a vertigem que me atravessara, então não me restou mais nada a não ser me entregar a este choque neutro que quase me drenou toda a vida — como uma corda laçada ao meu pescoço, seu laço exigia que eu não tivesse nenhum movimento brusco, caso contrário sua ameaça de drená-la completamente seria efetivada.

 

III

 

Hoje, mesmo estando sozinho — como sempre estive: ninguém fora realmente embora — comemoro diariamente sua partida, sua eterna vinda, sua, na verdade, nula existência; somado a tudo isso, comemoro a probabilidade de, após minha casa ter se dilatado e nela morarem duas pessoas, eu e ele estarmos unidos a um corpo. Agora que o sol se pôs para sempre aturdindo o dia como pertencente à escura noite, sei que posso servir-me de sua ausência como um trampolim que me leva ao seu encontro; a solidão resultante desse encontro sabe sobre aquilo que ignoro e bastava que eu me unisse a ela para que não o desespero de não saber, mas sim de saber aquilo que esqueci, permita-me dormir a sós enquanto acordo.

A paz — esta talvez seja uma palavra muito grandiosa para a minúscula percepção de que todas as minhas rachaduras são, quando vistas de cima, desenhos de caminhos por onde o homem que em mim é deve caminhar — que provém deste encontro faz com que a necessidade de buscar qualquer tipo de paz seja, enfim, liberada — liberando-me da recusa de te buscar — e não assustar-me ao me encontrar.

 
 
 

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